terça-feira, fevereiro 03, 2009

Rosa-dos-ventos

Queria quebrar todos os ventos verter para o silêncio
o fluido artificial da voz;
ficar suspenso num pequeno círculo
como uma sílaba discreta
no meio de um verso abandonado;
errar todas as direcções
e habitar o mais previsível
dos lugares
onde fosse encontrar
um pouco de matéria para a
alma.


Nuno Higino/Onde Correm as Águas - fotografia/Teresinha /Lisboa

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Canto do Vento

O vento começa agora a cantar,
o vento começa agora a cantar.
A terra estende-se diante de mim,
diante de mim estende-se ao longe.

Troveja agora na casa do vento,
troveja agora na casa do vento.
Percorro a terra dos trovões,
rugindo percorro a terra.

Às montanhas onde sopra o vento,
às montanhas onde sopra o vento
chegou o vento dos cem mil pés,
a elas chegou o vento correndo.

Chegou o obscuro Vento Serpente,
chegou o obscuro Vento Serpente.
Chegou e enrolou-se sobre si mesmo,
com seus cantos chegou correndo.

Poemas Ameríndios / Pimas / (mudados para português por) Herberto Helder - Fotografia/ Teresinha (Torre de Belém/ Lisboa)

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Prémio Blog de Ouro

Recebi no meu Blog o prémio: "Blog de Ouro"

Veio directamente da Fátima de: http://banalidades-banais.blogspot.com/
Obrigada pela distinção com que me elegeu. Quem não esperava, era eu!
O Prémio Blog de Ouro, é atribuído só a mulheres.
Com as seguintes regras para quem o recebe:
1 - Exibir a imagem do selo
2 - Escolher seis mulheres diferentes a quem entregar o Blog de Ouro
3 - Deixar um comentário nesses Blogs para que saibam que ganharam o prémio

Eu entrego o prémio ás seguintes presenças na Blogosfera:

To the Light House
O céu da Céu
Xonguila
Quiromancias
Monte das Sete Figueiras
Floresta 53

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Voyeur

Cheguei-me já sem voz junto à falésia
e lancei rocha abaixo o que me fora imposto.
Não sei que verde mão os fundos removia
ou que água suja ou crosta corroíam a pedra
com o mar avançante,
retrocedendo, ferindo,
lá em baixo,
e as gralhas electrizavam sua penugem, e senti
certa satisfação ao comtemplar minha vertigem,
sabendo concerteza que ao fim
e ao cabo isto é só um poema,
Que continuo aqui e posso ainda escrevê-lo.

Maria Victoria Atencia / Antologia Poética - Fotografia / Teresinha (Porto Covo)

domingo, janeiro 11, 2009

As Tuas Mãos...


As minhas mãos mantêm as estrelas,
Seguro a minha mão para que se não quebre
A melodia que vai de flor em flor
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das
[coisas.

Sophia de Mello Breyner / Obra Poética

Chegou o Francisco 11-01-2009!
Acolher um filho nos braços é, uma experiência... «AVASSALADORA»!
(Palavras da Ana - mãe do Francisco - quando a felicitei)
Que o vosso filho seja um "RAIO DE SOL", durante toda a vossa VIDA.
Fotografia / Teresinha - (Uma semana antes de chegar o Francisco)

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Com a Alma no Olhar

No rectângulo da solidão
elevada ao quadrado
ao cubo
ou a uma quarta dimensão
ainda me liga a ti
amigo
não amado amor
a recordação da paisagem
deste Novembro incerto
que não sou capaz
de repelir

Maria José Ramil/ A Folhagem e o Mar - Fotografia/ Teresinha (Sonega)

segunda-feira, janeiro 05, 2009

This is for you ...

I found the words to every thought I ever had -but One-
And that -defies me-
As a Hand did try to
Chalk the Sun.


«Encontrei as palavras para todos
Os meus pensamentos -excepto Um-
E isso -é um desafio para mim-
Como escrever a giz no Sol»


Emily Dickinson /Poemas e Cartas/ (1862) - Fotografia/Teresinha (São Torpes)

quinta-feira, janeiro 01, 2009

"Renovação"

Tisana 415
Sento-me à porta de mim mesma e penso: o tempo é uma espécie de revelador fotográfico ao contrário: faz com que as imagens em vez de aparecerem, desapareçam. Toda a revelação é um puzle de hipóteses. Perscrutar é o trabalho do criador que procura, o que martela o seu coração.

Ana Hatherly/463 Tisanas - Fotografia/Teresinha

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Que Rena Vem a Ser Esta?

Dois dias depois do Natal, chegou a minha casa esta Rena, bem "camuflada", muito bem embrulhadinha dentro de uma caixa. Vinha directamente do "Baú da Tita". Apressei-me a retirá-la, (não fosse sufocar)!... Reconheci-a de imediato. Como é possível ?! Tu aqui !!! Mas, esta Rena, é a "Rena Namoradeira" da Carol!!!...
- Saberás porventura, onde ela andou até hoje Carol? -Onde pára o teu Conto Natalício? Preciso urgentemente que publiques esse conto para eu ter a certeza absoluta da sua identidade. Será que estou enganada? Na mão esquerda, ela traz um Abeto com uma Estrela e, na direita, um Coração. -Será que é ela???!!!
É que, custa-me imenso vê-la ali a olhar para mim completamente muda . Porque trará ela o coracão pendurado na mão? (fico a aguardar Carol).
Fotografia/Teresinha

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Contraste da Noite de Natal

Ser Alentejano
1º
Vinte e quatro de Dezembro,
noite fria
Noite de tristeza,
noite de alegria
Noite de miséria,
noite de farturas
Palácios cheios de Luz
Mentiras aos pés da cruz
Choupanas frias às escuras.

2º
Lindos sapatinhos na Chaminé
Cheios de ilusão e de fé
Pelos brinquedos
há muito esperados
Damas perfumadas
Que fazem compras esmeradas
Pés descalços,
corpos esfarrapados.

3º
É noite em que desce
à terra o bom Jesus
Noite de Pão, Amor e Luz
Quem foi que isto nos ensinou?
O Natal é só para alguém
Para aqueles que nada têm
O Natal foi mais
uma noite que passou.

António Mestre /Abela /Santiago do Cacém - Semanário Notícias do Litoral
Fotografia/Teresinha - "Um Alentejano"

terça-feira, dezembro 23, 2008

Menino Jesus

"Num dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.

Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino.
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de um modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do Céu. (...)"
*
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) - Fotografia/Teresinha
Poesia deixada "em jeito" de comentário, pela Fátima. http://banalidades-banais.blogspot.com/

sábado, dezembro 20, 2008

"Olhos d' água" em Vale D' Água

Aguardando a chegada da Tunasas no Centro de Dia
Com um sorriso na nossa recepção, sentado à janela
Cantámos e distrubuimos docinhos
Um misto de timidez e curiosidade.... Conversámos bastante...
Quando lhe disse que, tinha uns olhos claros bonitos, que gostaria de o fotografar respondeu-me um pouco incrédulo, mas de imediato! Estou bem assim?!
- Está muito bem assim!!!
- Obrigada pela tarde que nos proporcionaram. Que esta Quadra Natalícia traga a todos o aconchego e o conforto de que necessitam , ELES e ELAS, que se alegram e transformam na presença daqueles que os fazem sentir-se acarinhados...
Fofografia /Teresinha- Foto Ferrero Rocher/ Zé Senos

quinta-feira, dezembro 18, 2008

TUNASAS de Visita à Abela

A (Belas), dobando "retalhos" para os tapetes...
"Belíssima" da Abela!
Cantando para nós. Obrigada, Maria Páscoa!
****************************************
*
Rosto
Rosto nu na luz directa.
***
Rosto suspenso, despido e premeável,
Boca entreaberta como se bebesse,
Cabeça atenta.
***
Rosto desfeito,
Rosto sem recusa onde nada se defende,
Rosto que se dá na angústia do pedido,
Rosto que as vozes atravessam.
***
Rosto derivando lentamente,
Pressentindo que os laranjais segredam,
Rosto abandonado e transparente [...]
*
Sophia de Mello Breyner/ Obra Poética - Fotografia/ Teresinha
Homenagem aos «Rostos das Mulheres de Abela»

terça-feira, dezembro 16, 2008

TUNASAS em São Domingos

Ó meu Menino Jesus...
Cantando as "antigas" Janeiras

*Que o AMOR e a SOLIDARIEDADE seja o elo mais profundo em tudo o que for planeado, realizado e vivenciado no ANO que está para vir*.
********************************************
*Cânticos de Natal* Deslocação da Tunasas ao Centro de Dia de São Domingos.

Fotografia / Teresinha

domingo, dezembro 14, 2008

Bocelli

O Gato
Que fazes aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que Deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice, de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O'Neil / Poemas com Animais / Breve Antologia - Fotografia / "Bocelli "/Aurora

sábado, dezembro 13, 2008

"Borys"

«Despedida ao meu Amigão»
Chegaste trazido pelos meus filhotes, faz este Natal 12 anos. Eras jovem cão com cerca de dois meses, lindo, simpático e brincalhão. Foste criado como mais um elemento da nossa prol, chegando mesmo a ser tratado pelo Álvaro e Sónia como mano Bóris. Sabíamos que também nos consideravas elementos da tua matilha...
Deste-nos tantas alegrias, foste o nosso grande amigo , sempre disponível para saires e ficares connosco. Tive-te sempre no meu pensamento e no meu coração e jamais te esquecerei. Obrigado por tudo que e como foste. Certamente que fui por vezes injusto para contigo, quando poderia ter sido bem melhor, mas sou humano e os humanos ainda não aprenderam a ser cães. Partiste esta manhã, um pouco antes do meio-dia, ou melhor, fiz-te partir... terá sido coragem ou cobardia!?
Mas foi a decisão mais difícil que tomei até hoje, lembro-te e choro, o meu coração está dorido. Não mais terei essa carita linda, esses olhos meigos ou essa pequena cauda a abanar dando-nos sinal de aprovar tudo o que fazíamos ou dizíamos. Quanto melhor seria o mundo se certos humanos fossem amigos como tu foste. Sou crente, por isso acredito para além da morte. Quem sabe se um dia, não sei quando nem onde nos possamos encontrar?!
Comecei estas linhas com a tua chegada faz 12 anos pela altura do Natal, termino, com a tua partida, também pelo Natal, será só coincidência?!
Boris Amigo, por tudo que podia e deveria ter feito e não fiz, como por aquilo que fiz e não devia ter feito, as minhas desculpas e, acredita, foi muito viver contigo.
Aquele xi-coração.
eu........
(email enviado pelo Manel na despedida ao seu Fiel Amigo, Bóris - Fotografia /Manel)

sexta-feira, dezembro 05, 2008

«Provavelmente»

Provavelmente, o campo demarcado
Não basta ao coração nem o exalta;
Provavelmente, o traço da fronteira
Contra nós, amputados, o riscámos.
Que rosto se promete e se desenha?
Que viagem prometida nos espera?
São asas (que só duas fazem voo),
Ou solitário arder de labareda?

José Saramago / Provavelmente Alegria - Fotografia - C. Porfírio (Jardim em Málaga)

(Não resisti a publicar novamente Saramago)

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Madrigal

Foi milagre? Ideia louca.
Mas que mais posso dizer
Desta profunda alegria
De ver a alma aparecer
No riso da tua boca?
*
Ainda se fosse a tua,
Entendia,
Mas a minha que faz lá?
Parece um caso da lua
(Tais coisas não são de cá)
Andar-me a alma contigo.
Foi milagre. Bem o digo.
*
Provávelmente Alegria/José Saramago - Fotografia C. Porfírio

sábado, novembro 22, 2008

O Carteiro de Pablo Neruda


[...] - Qual abro primeiro, a carta ou o pacote?
- O pacote, filho - sentenciou Dona Rosa. - Na carta só vêm palavras.
- Não, senhora. Primeiro a carta. - O pacote - disse a viúva, fazendo menção de lhe pegar. O telegrafista abanou-se com uma asa e ergueu um dedo admoestador diante das narinas da viúva. - Não seja materialista, sogra. Com as mãos a tremer, pôs diante dos seus olhos o conteúdo, e começou a soletrá-lo cuidando que não se lhe escapasse nem o, mais insignificante sinal:
- «Que-ri-do Ma-rio Ji-mé-nez de pés a-lados...»
-Com um puxão, a viúva arrancou-lhe a carta das mãos e desatou a patinar sobre as palavras sem pausas nem entoações.
[...]«Não lhe escrevi antes como tinha prometido, porque não queria mandar-lhes só um postal com as bailarinas de Degas. Sei que esta é a primeira carta que recebes na tua vida, Mario e, pelo menos tinha de vir dentro de um envelope: se não, não vale. Dá-me vontade de rir pensar que esta carta tiveste de entregá-la tu mesmo...
[...] Rosa remexeu a abundante palha que enchia o pacote, até que acabou tirando com a ternura de uma parteira, um japonesíssimo gravador «Sony», de microfone incorporado. Preparava-se para ler um cartão manuscrito a tinta verde, pendurado de um elástico que rodeava o aparelho quando Mario lho tirou com um puxão. - Ah, não senhora! Você lê com demasiada rapidez. Pôs o cartão uns centímetros à sua frente como se o colocasse numa estante de música, e foi lendo com o seu tradicional estilo soletrado: «Que-ri-do Ma-rio dois pon-tos ca-rre-ga o bo-tão do mei-o.» -Você demorou mais tempo a ler o cartão que eu a ler a carta. - É que você não lê as palavras, mas devora-as, senhora. As palavras temos de saboreá-las. Temos de deixá-las desfazerem-se na boca. -«Queria mandar-te mais alguma coisa além das palavras. Por isso meti a minha voz nesta gaiola que canta. Uma gaiola que é um pássaro. Ofereço-ta. Mas também quero pedir-te uma coisa, que só tu podes fazer. Os outros meus amigos pensariam que sou um velho gagá e ridículo. Quero que vás com este gravador passear pelha Ilha Negra e me graves os sons e os ruídos que fores encontrando. Preciso desesperadamente nem que seja do fantasma da minha casa. Vai ao jardim e deixa tocar os sinos . Primeiro grava esse repicar fininho dos sininhos pequenos quando os agita o vento, e a seguir puxa a corda do sino maior, cinco, seis vezes. Sinos, meus sinos! Não há nada que soe tanto como a palavra sino, se a ouvimos de um campanário junto ao mar. E vai até às rochas e grava-me a rebentação das ondas. E se ouvires gaivotas, grava-as. E se ouvires o silêncio das estrelas siderais, grava-o. [...] Gravou o movimento do mar com o capricho de um filatelista. Reduziu a sua vida e trabalho, perante as iras de Rosa, a acompanhar os vaivéns da maré-alta, do baixar da água saltadora animada pelos ventos. Pôs o «Sony» numa corda, e filtrou-o por entre as gretas dos rochedos onde esfregavam as suas tenazes os caranguejos, e os limbos se abraçavam às pedras. Noutros dias calmos, teve a sorte de captar o voo picado da gaivota quando caía vertical sobre a sardinha, e o seu voo a rasar as águas controlando-a segura no bico [...]

O Carteiro de Pablo Neruda / António Skármeta

quinta-feira, novembro 20, 2008

This is For You my Son!


Está atento com o silêncio,
Protege-o porque contém todos os sonhos dos homens.
Preceito Ameríndio
******************************
Chegou o teu dia.
Filho,
ficarás de pé
durante a luz do dia.
Passámos os nossos dias
Preparando o teu dia.

Poemas Ameríndios / Versão por Herberto Helder
Fotografia / Teresinha

segunda-feira, novembro 17, 2008

Gotan Project - El Capitalismo Foraneo

Obrigatório, ver, dançar e, assistir ao Espectáculo dos Gotan Project, dia 20 de Dezembro, (sábado), no Campo Pequeno, Lisboa.
[...] Entretanto, ensaie uns passos ao som desta música e, aproveite para ver outros vídeos, Gotan Project...

terça-feira, novembro 11, 2008

Istambul Memórias de Uma Cidade





[...] Estávamos na charneira dos anos sessenta com a década de setenta e, nesse domingo de manhã circulávamos pelas avenidas e ruas desertas de Istambul. O meu pai explicava-me que a melhor coisa na vida era a pessoa comportar-se como lhe apetecia, que o dinheiro não era um fim em si mas um meio que devia utilizar-se se isso contribuísse para o prazer da vida, falava-me dos poemas que tinha escrito e dos de Valéry que traduzira para turco no seu hotel de Paris quando nos abandonara , e, num tom alegre, contava como alguns anos mais tarde, numa viagem à América, lhe tinham roubado precisamente a mala onde guardava todos esses poemas e traduções. Esses relatos do meu pai - e também a história de como, nos anos cinquenta, via Jean-Paul Sartre nas ruas de Paris, e a da construção da residência Pamuk ou ainda a de uma das suas primeiras falências - eram feitos de maneira desordenada, saltando de um assunto para o outro em simetria com a disposição das ruas por onde passávamos ou a compasso da música que ouvíamos. Eu sabia, que nunca mais esqueceria a história que ia contar-me ao mesmo tempo que me chamava a atenção para a beleza da paisagem e para as lindas mulheres que caminhavam nos passeios, enquanto eu olhava através do pára-brisas para as imagens cinzentas da Istambul invernal. Observava os carros que atravessavam a ponte de Galata, as ruas estreitas dos bairros populares com enfiadas de casas de madeira ainda de pé, ou a pequena chaminé de um rebocador que singrava no Bósforo puxando barcaças carregadas de carvão. Ouvia atentamente os conselhos do meu pai. [...] Eu tinha a sensação que se operava uma simbiose entre o que via e o que ouvia. Ao fim de algum tempo, a música, as imagens de Istambul desfilando através dos vidros, os passeios e as ruas de pedra por onde o meu pai metia dizendo «vamos por aqui?» sem esperar pela minha resposta [...] Notava também outra coisa, tão importante como essas dificuldades: pensando nelas, precisamente, ou procurando o rasto da felicidade e da profundidade da vida, vemos pelo vidro do carro, da janela de casa ou do barco em que se atravessa o Bósforo, imagens que acompanham o nosso pensamento. Isso é muito importante porque, com o tempo, a vida, uma melodia, um quadro ou um conto conhecerá altos e baixos, ao passo que as imagens da cidade que passam diante dos nossos olhos, mesmo anos mais tarde, conservarão para sempre a frescura e ficarão em nós como a lembrança de um sonho[...]

Ohran Pamuk / Istambul Memórias de Uma Cidade

quarta-feira, outubro 29, 2008

Faça uma "Pausa"...

* Equilibre os seus objectivos com os seus hábitos.
* Analise o seu comportamento.
* Utilize formas adequadas de gestão de tempo.
* Transforme-se numa pessoa aprazível.
* Abrande o ritmo:
- O seu trabalho e as suas tarefas não são tão urgentes. Faça do "estar em equilíbrio" a sua principal prioridade. Dedique algum tempo a disfrutar a vida.
- Procure harmonia em todas as vertentes que conduzam ao bem-estar geral.
- O pensamento positivo é apenas o primeiro passo na longa caminhada que é o desenvolvimento pessoal...
Revista Científica/dr. Fernando Lima Magalhães - Fotografia/Teresinha

terça-feira, outubro 21, 2008

Gaivota

Fui ao cais, vi uma gaivota
Toda branca, toda escura:
alegria ou amargura?
Quem há-de saber, quem há-de?
Triste gaivota tão branca,
lencinho negro traçado:
estás de luto aliviado?
Quem há-de saber, quem há-de?
Não sei se cantas, se gemes,
triste gaivota do mar:
que choro é o teu cantar!
Quem há-de saber, quem há-de?
Ai! Quem me dera arrancar
sem te doer, de mansinho,
as penas do teu lencinho!
Quem soubera? Quem o sabe?

Matilde Rosa Araújo/Antologia Poemas c/ Animais
Fotografia da mana Aurora - (Para a Carol)

sábado, outubro 11, 2008

Há Mil Anos Que Aqui Estou


"La formicuzza in un campo di lino disse al grillo dammene un pochettino e la rizumpalallillallero e larizumpalarillá".

(A formiguinha num campo de linho disse ao grilo dá-me um bocadinho e olarilolé e olarilolá.)

Oitavo capítulo
[...] A viagem em terceira classe fora longa como uma travessia oceânica. Desceu, altiva, da carruagem de madeira e tropeçou no último degrau enquanto tirava a mala leve que continha todos os seus pertences. Olhou em seu redor. O vale careca de Basento brilhava ao sol. Na estação não estava ninguém. Apenas se ouvia o cantar das cigarras. Cicia encontrava-se ali por engano. Olhou o combóio a afastar-se lentamente resfolegando, e lançou em volta um olhar desolado. Arrependeu-se de não ter ficado em Roma. Aí, pelo menos viveria com gente civilizada. Agora, esperava de um momento para o outro o aparecimento de peles-vermelhas como os que vira no cinema num western, no dia anterior ao da partida.
[...] Quando descobriu que Grottole, na realidade , ficava num lugar de que nunca ouvira falar chamado Lucânia, lá para baixo da bota, onde a circulação estanca e o sangue tem dificuldade em voltar a subir, já não havia nada a fazer. Estremeceu quando ouviu uma voz atrás dela . Era Ciola Ciola com o corregedor. Vinham buscá-la numa carreta puxada por uma mula que estacara ao longo do caminho e, por esse motivo, os fizera chegar atrasados. Cicia aceitou as desculpas com a graciosidade de uma raínha, depois subiu para a carreta como Maria Antonieta quando a conduziram ao patíbulo, tendo o cuidado de segurar o vestido para não se sujar, e fez descer do chapéu de palha um pequeno véu para se proteger das melgas assassinas e dos outros insectos. E deste modo, Cicia, Ciola Ciola e o corregedor entraram na aldeia. Uma vez que era a primeira obstetra do Estado que vinha para Grottole, era preciso instalá-la nalgum lugar...

Há Mil Anos Que Aqui Estou / Mariolina Venezia - Prémio Campiello 2007